Luís Mauro Sá Martino: um pensador para romper com as bolhas sociais

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Em períodos em que as tensões, sobretudo nas redes, estão tão em voga é importante lembrar que a alteridade muito vale – aliás, isso só ocorre quando temos abertura para a troca com o diferente. “A comunicação é uma tentativa de se aproximar desse mistério que é o outro, compreender um pouco mais dele. Para isso, é preciso abertura para entender o outro como ele é, não como gostaríamos que fosse”, comenta Luís Mauro Sá Martino, de 40 anos, jornalista, pensador, pesquisador e professor da Faculdade Cásper Líbero.

Martino nos conta que a lógica do “mundo dentro de uma bolha” vai além das redes digitais: elas estão no nosso cotidiano. “Procurar sair dessas bolhas é o primeiro passo para aumentar os limites do nosso mundo”, observa. Romper a bolha é dar espaço às diferentes oportunidades de vivências – afinal, você já reparou que na sua timeline só há assuntos relacionados ao que você curte ou interage, não é mesmo?

Em entrevista, o professor reflete sobre nossos vínculos e laços dentro e fora das redes.

ANÁLIA – Como você define o que seriam as bolhas neste mundo de redes?

MARTINO – O que a gente está chamando de bolha, na verdade, é o jeito como nas redes sociais, por intermédio dos algoritmos – que são os programas das redes sociais, assim como há os programas de computador, eles organizam o que a gente vai ver ou deixar de ver. Imagina que, numa rede social, eu tenha mil conexões. Eu não verei posts de mil pessoas. O algoritmo selecionará desses mil, o que aparecerá para mim ou não. E por que a gente chama de bolha? Porque este algoritmo seleciona de acordo com as minhas preferências. Se eu curtir uma página sobre cozinha italiana e macarrão, todo mundo que postar alguma coisa sobre cozinha italiana e macarrão aparecerá no meu perfil, e aí, o que acontece? Na minha cabeça, tenho a impressão de que os meus amigos gostam de comida italiana. Na verdade, não é isso. É que eu estou vendo somente mensagens sobre este tipo de culinária. De certa maneira, vivemos em “bolhas” mesmo antes das redes sociais. Nosso conhecimento da realidade é sempre limitado. A internet e as mídias digitais nos permitem aumentar esses limites, desde que se queira buscar outras informações. Um bom começo para sair da bolha é duvidar das informações que se tem. Perguntas, mais do que respostas, aumentam nossos horizontes.

ANÁLIA – Você acha que essa lógica de bolhas reforça as nossas privações de experiências diferentes no mundo fora da internet? Por quê?

MARTINO – Parece-me que não há muita diferença entre o on-line e o offline. A internet e as mídias digitais estão ao nosso redor, formam nosso ambiente. A lógica de bolhas não está apenas nas redes digitais, mas também no nosso cotidiano. Procurar sair dessas bolhas é o primeiro passo para aumentar os limites do nosso mundo.

ANÁLIA – Nossas relações estão inundadas de afetos e vínculos, que podem trazer sensações positivas e negativas. Para você, como funciona esses relacionamentos no mundo das redes sociais e além delas?

MARTINO – A comunicação tem uma dimensão afetiva muito forte. Quando nos comunicamos, afetamos e somos afetados pelo outro – se houver abertura para isso, claro. E não depende do meio: quando recebo uma mensagem no WhatsApp, por exemplo, fico feliz porque recebi uma mensagem de alguém, não porque foi via este ou aquele aplicativo. Por isso, comunicação significa também responsabilidade: o que digo, compartilho ou posto em uma rede social pode mexer com outra pessoa, e nem sempre temos como saber as consequências.

ANÁLIA – Nessas trocas, a alteridade importa, afinal, estamos em um mundo plural…

MARTINO – De certa maneira, a alteridade está na essência das relações. O indivíduo é o mais infinito dos mistérios, lembra um filósofo chamado Emmanuel Lévinas. Quando nos comunicamos, empreendemos uma tentativa de aproximar desse mistério que é o outro, compreender um pouco mais dele. Para isso, é preciso abertura para entender o outro como ele é, não como gostaríamos que fosse. O laço entre pessoas é criado na diferença, na alteridade.

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Sobre o autor

Redação Anália

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