Threenager: desafios de adolescente em uma criança de 3 anos

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A minha filha, Helena, está chegando aos 3 anos de idade e, depois dos 2, eu achei que não tinha mais como piorar. Mas chegou a fase threenager, e tudo mudou.

No vocabulário dela tem sempre o não. Inclusive quando eu pergunto: “Você tem outra palavra para dizer que não seja o não? NÃO!!” E tudo com a cara mais fofa do mundo, intercalando com outras fofurices como um beijo surpresa no meio do dia, um abraço seguido de eu te amo, elogios do tipo “mamãe você está muito bonita”, interpretações fervorosas de filmes da Disney  e intermináveis apresentações de ballet (onde quer que a gente esteja). Essas são as armas secretas dela. Está difícil não querer guardar em um potinho ela com essa idade para sempre , mas também é difícil ter paciência!

Às vezes eu acho que a minha filha veio para me mostrar o quão controladora eu era/sou. Ela é uma pessoa, não é uma boneca minha. Eu tenho que dialogar com ela, conversar mesmo, porque ela tem direitos e vontades e merece respeito!

Especialistas costumam chamar essa fase de Threenager, como se fosse a adolescência da primeira infância. Como se não bastasse o “terribles two”. E até que faz sentido. A Helena começa a se colocar mesmo. Ela quer se impor, só que agora tem mais recursos, mais palavras no vocabulário. Com 2 anos foi como se ela estivesse “desbebezando” e agora com quase 3 ela, com certeza, se impõe mais.

Ela tem todo um repertório de palavras para me dizer que  não vai fazer alguma coisa ou para me mostrar o quão machucada e chateada ela está comigo e tudo isso com aquela explosão de sentimentos. Ela não tem maturidade emocional para lidar com certas coisas, mas já tem uma bagagem de palavras para dizer tudo aquilo que está ali fervilhando na cabecinha dela. Então às vezes eu sinto como se eu estivesse levando uma porrada.

O que eu (prematuramente) já posso dizer sobre o meu aprendizado com essa fase é: não leve para o lado pessoal. Não é sobre você. É sobre a criança e o que ela está passando, interpretando  e absorvendo do mundo e da gente a partir dos olhos dela. Ela está descobrindo e criando as verdades dela.

Acredito que a gente tenha que oferecer alguns limites. Devemos afirmar que ela tem a liberdade dela de se expressar, que nós entendemos isso, mas que as regras estabelecidas e combinadas precisam ser seguidas. Por exemplo, eu que ela tenha o direito de estar brava, mas gritar, bater ou se jogar no chão não é tolerável aqui em casa.

Tem horas que bate um desespero e eu penso: “ferrou, suspende a disciplina positiva, deu ruim”. Aí eu me acalmo e converso com o Lucas, meu marido, para a gente parar e pensar. Porque a Helena está muito reativa e nós, ao mesmo tempo, ficamos assustados e encantados. Ela tem essa coisa de ser muito fofa e ao mesmo tempo briguenta, reclamona, ranzinza. Descobrir como me colocar nessa coisa de ser firme, porém amorosa, é quase uma alquimia.

A minha geração vem de uma criação que não era assim. Eu não me lembro de ter sido validada como criança, não lembro de ter a minha opinião considerada. O que eu pensava ou dizia não tinha valor de voto. Hoje, estou fazendo tudo diferente com a Helena e isso implica num trabalho danado. Eu estou dando ferramentas para ela , mas eu não tenho esses recursos dentro de mim, porque eu não fui essa criança.

Então é meio chocante essa criança que a minha filha é, super independente e super questionadora. É como se eu fosse silenciada duas vezes. Agora que eu sou adulta e que eu posso me impor, tenho que me calar e ouvir a criança que eu coloquei no mundo.

Para mim, essa é a essência do “problema”. A gente está vivendo em um momento em que queremos dar certas liberdades que a gente não tinha e isso acaba sendo um tiro no pé diretamente. A criança aponta em nós as mesmas inconsistências que gostaríamos de ter apontado nos nossos pais.

Mas no fim do dia, quando a gente respira, é recompensador. Quando eu vejo os avanços, aprendizados atitudes da Helena, é maravilhoso.

Eu tenho alguns arranca-rabos com a Helena, mas os nossos momentos de reconciliação são muito bonitos e eu sei que vou guarda-los. Eu vejo como ela aprende a perdoar e a pedir perdão, por ver a gente ali pedindo perdão: eu para o Lucas, o Lucas para mim, a gente para a Helena e ela, consequentemente, para a gente.

 

** Lygia Anzzelotti Mota é pedagoga e escreve no blog Tips for mom e no Instagram @tips.for.moms

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