Sam Gonçalves tinha certeza de que não seria selecionado, pois desfilar na São Paulo Fashion Week, onde todos os modelos masculinos são parecidos com aquela representação eurocêntrica: loiros dos olhos azuis, seria algo difícil. Ele, que é negro, tem vitiligo e que, por falta de recursos, nem sequer tem o registro profissional necessário para ser selecionado e participar de um desfiles desses?! Difícil! Sam, na verdade, participou do casting mais por insistência da namorada do que por qualquer outro motivo.

Faltava apenas uma semana para o desfile. Não era pra ser. Por isso, ele já adivinhava as duas palavras que ouviria a seguir, assim que, em uma festa com a equipe de sua agência, lhe disseram: “Sam, nem sei como te falar isso”. Manteve a certeza, durante os poucos segundos de suspense, até ouvir duas palavras. Mas eram outras: “Você passou”, gritaram.

Foi assim que, em outubro de 2016, aos 22 anos, ele descobriu que seria o primeiro modelo negro com vitiligo a pisar numa passarela do tradicional evento de moda. Desfilou pela Lab, grife criada pelo rapper Emicida e seu irmão Fióti, que tem direção criativa assinada pelo estilista João Pimenta.

Mesmo o desfile sendo da coleção de inverno, o modelo vestiu bermuda e moletom com mangas dobradas, tornando visíveis, assim, as manchas brancas nas pernas e braços, além daquelas ao redor dos olhos e da boca. “Estava muito nervoso quando coloquei o pé na passarela. É uma energia muito grande que você sente ali.  Até me benzi antes”, relembra Sam, que é umbandista. “Quando entrei definitivamente, vi a galera vibrando. É até meio difícil de manter a postura, foi meu primeiro desfile da vida, sabe? Mas, graças a Deus, consegui manter o foco e fiz meu trabalho.”

Depois de protagonizar este marco no mundo da moda, ele chamou a atenção da imprensa e do mercado. No ano seguinte, desde a realização do desfile, apareceram, entre outros trabalhos, um ensaio para revista Elle, na campanha verão 2018, da grife Cavalera e em clipes de música – um do rapper Projota e outro da cantora Anitta, o Vai Malandra, dirigido por Terry Richardson.

Uma foto fez a diferença

Nascido em São Miguel, Zona Leste de São Paulo, o envolvimento de Sam com o mundo da moda não se deu por meio de um olheiro, como costuma ocorrer, mas por sua própria iniciativa.

Em 2015, durante a Feira Preta – o maior evento de cultura negra da América Latina –, ele participou de uma intervenção do coletivo Afropunk Brasil em protesto aos ataques racistas contra celebridades, como Taís Araújo e Maju Coutinho. No evento, ele vestia regata e jeans rasgado e posou para uma foto segurando um cartaz com a inscrição: “Seu problema é com cor? Eu tenho duas!!”.

 

A foto viralizou nas redes sociais. Ele, que já havia sido questionado sobre seu potencial para modelo, decidiu dar uma chance ao ofício. Procurou uma agência, mas as coisas não saíam como esperado. “Era uma agência cheia de estereótipos, padrão Jesus europeu, e não acreditaram em mim.

Chegaram a me dizer que, se eu quisesse trabalhar na agência, teria que pagar 5 mil reais de book, e daí eu desisti desta tentativa. Sam conta que logo depois, foi contatado pela Squad, agência de street casting que procura levar a diversidade das ruas para o mercado fashion. “Foi logo quando eles estavam começando. Eu até poderia ter feito parte do primeiro casting da Squad, mas por conta da desilusão com a primeira agência, não botei muita fé. Entrei só na segunda seleção, seis meses depois. Foi quando as coisas começaram a acontecer.”.

 

Limões e limonadas

O limão, no caso, foi a adolescência de Sam. Aos doze anos, ele descobriu uma pequena mancha branca ao redor dos olhos e também perdeu seu pai para um câncer. Teve então que lidar, simultaneamente, com a morte e o bullying dos colegas de classe que lhe botavam apelidos e ligavam para sua casa cantando músicas cheias de palavrões que ele prefere não lembrar. Os trotes não cessaram nem mesmo no dia da morte de seu pai. “Foi uma fase muito difícil. Mas, hoje em dia, eu uso o que me machucou. Fiz da dificuldade a minha motivação para poder mudar”, afirma.

O modelo, porém, tinha preocupações mais urgentes: depois que sua mãe sofreu um acidente de ônibus, ele decidiu abandonar os estudos e começar a trabalhar. Sam tinha apenas catorze anos e havia acabado de completar o ensino fundamental quando começou sua trajetória pelos mais diversos tipos de emprego: funcionário de lava-rápido, garçom, churrasqueiro, metalúrgico, vendedor de roupas, de ferramentas para ourives e de suplementos alimentares.

Sam, quando consultou um médico para descobrir o que eram aquelas manchas brancas, já tinha dezessete anos. Dessa consulta, ele descobriu que as manchas eram provocadas vitiligo, uma doença não contagiosa que provocava a perda da pigmentação natural da pele. Com isso, ele iniciou o tratamento num hospital em Guarulhos. Segundo o modelo, ele precisava tomar três conduções para uma sessão de banho de luz artificial, esta rotina era repetida sempre uma vez por semana. “Levava duas horas para chegar e ficava um minuto dentro da câmara de luz”, relembra. “Não via resultado nenhum, me cansei e passei a não ligar. Decidi que quem tivesse que gostar de mim iria gostar pelo que sou.”.

O padrão é a gente

Apesar da sua atual desenvoltura, demorou para o modelo se aceitar e reconstruir sua autoestima. “Muita gente me acha bonito, mas muita gente também me acha estranho. Eu ligava, sim, para isso, mas agora não mais.”.

Passar por esse tipo de situação, não quer dizer que ele não conviva bem ou se irrite com esses acontecimentos. “As pessoas estão muito acostumadas ao padrão imposto. Isso começa desde a escola, quando nos convencem que a menina loira dos olhos azuis é a mais bonita da sala e a mais feia tem o cabelo crespo e de pele negra”, filosofa. “Na real, creio, cada vez mais, que o padrão é a gente”.

* Por Helder Ferreira

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