Falar de comida é falar de cultura, mais especificamente de cultura popular. Pensar nas receitas e nos ingredientes que preparamos é, sem dúvida, voltar a dar importância ao que, muitas das vezes, desdenhamos. Basta observar alguns pratos estrangeiros tidos como “chiques” e ficará fácil de entender a proporção de importância da cozinha popular. O tradicional prato francês ratatouille, por exemplo, é nada mais na menos que um mexidão de legumes. É, na verdade, uma maneira bastante simples de aproveitar os produtos locais da região da Provença, na França: tomate, berinjelas, abobrinhas, pimentão, cenouras… Essa mistura de legumes só ganhou status depois que os franceses foram considerados os pais da gastronomia ocidental, por volta do século 19. Mesmo assim, até hoje os camponeses da Provença veem o ratatouille como um prato do dia a dia.

 

Quer outro exemplo? A paella é um prato criado por camponeses valencianos, feito para aproveitar a produção da região: arroz, frango, coelho, pato… Como curiosidade, é interessante saber que os frutos do mar, que hoje são protagonistas, só entraram na lista de ingredientes depois, conforme o prato foi se popularizando no litoral espanhol. Ninguém contesta que tanto o ratatouille quanto a paella são receitas saborosas, até porque é próprio dos mexidos apresentar uma profusão de sabores e gostos que dão origem a um novo sabor, mais complexo e, por que não, emocionante.

 

Vários de nossos “mexidões” estão recebendo um tratamento diferenciado por parte alguns chefs e de restaurantes que adotam um o conceito de revalorização da cozinha popular brasileira. A moqueca, a feijoada e a galinhada são bons exemplos de receitas “brazucas” que todo mundo gosta e que não saíram o hábito alimentar do brasileiro. E aí é que está o xis da questão: essas receitas estão vivas, porque o povo de todas as classes se apropriou delas. Sentir aquela “fominha de feijoada” às quartas é algo bastante instintivo, mas também é a mais genuína manifestação da identidade gastronômica brasileira. Valorizar a nossa cozinha é, portanto, pensar um pouco mais nas receitas e ingredientes, mesmo nos momentos mais triviais. Não é um exercício muito difícil. Pretende fazer uma carne de panela? Então, por que não comprar mandioca ao invés da batata europeia? Só isso já faz com que sua carne se torne um clássico da cozinha caipira, a “vaca atolada”.

 

Em alguns países vizinhos, como o Peru, esse inconsciente coletivo já é algo mais palpável. Não à toa que se trata de um dos países com a gastronomia mais viva e celebrada do mundo. A questão toda de valorização da culinária brasileira não se resume ao purismo ou ao radicalismo, ou seja, usar só ingredientes brasileiros. Trata-se, na verdade, de saber o que se está comendo, até para poder brincar com ingredientes e preparos com mais consciência.

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