O casal é fenômeno no mercado editorial e em palestras pelo país todo. Ana Emília Cardoso, 40 anos, e Marcos Piangers, 37, compartilham em best sellers suas histórias sobre maternidade, paternidade e o dia a dia de sua família.

Ele é o autor do livro O papai é pop (Belas Letras, 2015), já ela escreveu A mamãe é rock (Belas Letras, 2016). Mas a grande parceria dos Cardoso Piangers está na formação de sua própria família, que traz ainda as duas filhas do casal, Anita, 12, e Aurora, 5. Estas duas, aliás, são as protagonistas das histórias por eles narradas e das mudanças na vida do casal.

Piangers e Cardoso transparecem em seus textos a emoção experienciada ao serem pai e mãe de corpo e alma. Empáticos e ativos na web, eles mantêm uma newsletter aos pais cadastrados pelo site. “São mais de 16 mil pais e mães. Em algumas oportunidades, gravo vídeos respondendo às perguntas que eles enviam, procuro sempre responder aos comentários que vêm pelo site ou pelas redes sociais”, conta Marcos.

A narrativa de Piangers, especificamente, traz um toque emocionante especial. Marcos foi criado por sua mãe, apenas. Conheceu seu pai somente na fase adulta de sua vida. Na conversa a seguir, Ana e Marcos nos contam um pouco sobre suas experiências como pais, sobre a recepção dos leitores e como educar as crianças para serem autônomas e “desprincesadas”.

Na casa de vocês “o papai é pop” e “a mamãe é rock”. De onde e como veio a ideia de criar crônicas a maternidade e a paternidade? Como vocês veem essa empatia que o público demonstra com as histórias publicadas?

Ana: O Marcos começou escrevendo no jornal Zero Hora [do Rio Grande do Sul]. Depois de um ano com as colunas semanais, ele foi procurado por uma editora. Foi quando ele fez a compilação e lançou o livro. Não esperávamos que fosse fazer tanto sucesso [O papai é pop já vendeu mais de 150 mil exemplares no brasil e no exterior]. Com o grande sucesso, a editora também me convidou para escrever sobre maternidade.  Inicialmente, fiquei até assustada com essa empatia toda do público sobre o assunto. A gente não tinha ideia de que falar sobre maternidade e paternidade impactava tanto as pessoas. No geral, sempre procuramos dar um ponto de vista de não incentivo ao consumismo nos textos, falamos para os pais ficarem mais próximos dos filhos, eliminarem um pouco de tecnologia. Eu acho que, quando as pessoas leem isso, elas sentem um pouco de esperança, que as relações com os filhos podem melhorar.

Anita e Aurora acabam sendo famosas também, por serem protagonistas desta experiência familiar que vocês relatam. Como elas lidam com essa exposição?

Marcos: A Aurora adora, é uma menina que já nasceu nessa onda. Desde muito pequena, ela já nos via nos relacionando com o público e percebendo esse carinho todo. Em alguns eventos, Aurora faz a abertura das palestras, inclusive. A Anita já é mais reservada. Ela tem 12 anos e está entrando na adolescência. Então, ela tem uma série de restrições com relação às aparições, exposição e fotos e respeitamos isso.

Em um dos vídeos no YouTube, Marcos, você fala que aprendeu muito sobre o lúdico com as suas filhas. Como esta brincadeira com o lúdico mudou a vida de vocês?

Marcos: A gente percebeu que, com o passar do tempo, a maternidade e a paternidade nos aproximavam de um universo interessante – profundo, criativo e inventivo. Este é um olhar que é lúdico e também meio turístico de estar o tempo todo ao redor, olhando ao redor e tentando aprender. De estar questionando, de forma curiosa. Descobrindo novas possibilidades. E essa capacidade o adulto vai perdendo e ter filho é a chance de renovarmos essa visão especial sobre a vida e olhar tudo com mais uma espécie de encanto.

Ana: Eu tenho a impressão de que, quando a gente tem filho, é como se a gente pudesse voltar a ser criança de novo. E isso é muito gostoso!

Como vocês veem essa diferença do tempo dedicado à família na infância de vocês e hoje com as suas filhas? E como a tecnologia ajuda ou atrapalha nesta interação?

Ana:  Por exemplo, não lembro da minha mãe fazendo lição de casa comigo, não tenho nenhuma lembrança neste sentido. Eu assistia mais televisão do que as nossas filhas assistem. Mas há 30 anos nenhum pai e mãe ficava olhando no celular, a gente não tinha computadores em casa, né?! Então, acho que o tempo se modificou mais em alguns aspectos. Os pais são mais chamados hoje para participar, por exemplo, da vida escolar do que na minha época.

Marcos: A tecnologia tem um impacto brutal. Nós somos a primeira geração com contato com a internet. Consequentemente, somos a primeira geração que é cheia de culpa no coração por tanta informação disponível. Não sabemos como educar os nossos filhos corretamente, porque a informação é muito abundante.  Além disso, ainda tem o uso de tecnologia, o contato com redes sociais. Com ela, há a impressão de que a vida dos outros é sempre melhor, que os filhos dos outros estão sempre mais desenvolvidos e o tempo de fato que a gente perde. Então, neste sentido, acho que a gente tem um problemão nas mãos, que é o uso excessivo de tecnologia. E um problemão nas mãos das crianças, que é o uso excessivo de tecnologia por elas. A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda a exposição à tela para crianças com menos de dois anos e, depois de dois anos, um adulto deveria estar sempre ali ao lado. O que fatalmente não acontece em famílias que tem tablets, celular e televisões espalhadas pela casa.

A Ana fala do processo de “desprincesar” meninas, que é esta consciência de protagonista das meninas também por suas ações. Como vocês trabalham esta questão na casa de vocês?

Ana: Pensamos que tanto as nossas filhas quanto as outras meninas não devem se sentir menos do que um menino, não devem ter sonhos menos audaciosos. Então, a gente procura encorajá-las a fazer o que quiserem, a sonhar com o que quiserem e a gente procura fortalecê-las para que acreditem que, sim, é possível. Outros aspectos que a gente trabalha bastante na educação delas é que, de fato, há diferenças entre ser uma menina e ser um menino e a gente procura minimizar isso. A Anita, por exemplo, está entrando na adolescência, então a gente conversa muito sobre sexualidade e outras questões que eu acho que faz parte de “desprincesar”. Na minha opinião, é não criar meninas ingênuas e sonhadoras e que só pensem em casamento e que não pensem nelas como agentes ativos.

 

 Quando o pai é presente, geralmente ele é visto como herói. Quando a mãe é presente nem sempre ela tem este reconhecimento . Como vocês veem essa situação?

Ana: Há alguns dias, eu vi, num perfil do Instagram que a Anita segue, a imagem de um pai dando uma mamadeira para um bebê dentro do metrô. E o pai nem estava olhando para o bebê. Ele estava olhando para outra coisa e a legenda era: “ah, tinha que ter mais pais como este no mundo”. Então, eu acho que isso mostra bastante como é fácil ser considerado um bom pai. Se tivesse uma mãe nessa situação, que está dando uma mamadeira e nem está olhando para o rosto do bebê, está distraída… ela estaria sendo julgada como uma má mãe.

Vocês foram pais jovens, no começo dos 20 anos. Quais são as angústias que vocês sentiram? E como lidar com tais angústias?

Ana: Houve um impacto grande na minha vida profissional, porque eu tive que parar de trabalhar. Eu tinha sido aprovada em um concurso público e não pude assumir o cargo. Essa era uma angústia que me incomodava muito. Quando a Aurora nasceu [a segunda filha], eu já tinha 34 anos e já sabia qual era o processo, com que idade ela poderia ir à escola, quantas horas ela provavelmente dormiria, o quanto eu poderia trabalhar – eu já trabalhava em casa. Então, minha maior preocupação na segunda filha foi administrar o fato de ter duas filhas pequenas.

Marcos: Tive angústias por ser jovem e por nosso relacionamento estar no começo, mas eu fiquei muito empolgado. Eu tive mais felicidade de poder realizar o sonho de ser pai do que angústias. A vida do homem não muda tanto quanto a da mulher, que tem transformações fisiológicas, profissionais, sociais. O homem continua trabalhando e tendo pouca cobrança, as transformações acontecem mais para frente. Se o cara realmente não participa, ele nem verá essas transformações acontecerem de forma tão contundente e até estranhará quando a esposa reclamar. Mas quando o cara participa mesmo, aí ele vê que cuidar de um filho é complicado e trabalhoso. E e aí, sim, talvez, pode vir alguma angústia, mas que a longo prazo é reparada por um senso de realização.

 

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