Pensar a longevidade vai além da maior expectativa de vida, um fenômeno global. A longevidade também está relacionada ao bem-estar e ao modo de vida que permita autonomia e independência. “Desde que se esteja acima do linear de dependência, onde você pode cuidar de si mesmo, tomar banho sozinho, se alimentar, você está independente. A rigor, não envelheceu”, comenta Alexandre Kalache, de 73 anos.

Ele é médico e especialista em envelhecimento, com doutorado em Saúde Pública pela Universidade de Oxford e atual presidente da Aliança Global de Centros Internacionais de Longevidade. Kalache explica que o conceito cronológico pode apresentar equívocos. Ele próprio é exemplo de uma vida ativa, com viagens constantes ao redor do mundo devido às palestras que ministra e às conferências que participa.

Em entrevista para o Blog do Anália, Alexandre Kalache demonstra porque é uma das referências em envelhecimento no país.

ANÁLIA | O senhor usa muito o termo gerontolescência, como uma faixa da terceira idade que funciona como um processo social, assim como a adolescência. Quais dicas o senhor pode dar para a população se preparar melhor para essa nova etapa?

KALACHE | Eu criei esse termo, gerontolescência, um pouco para brincar e para chamar a atenção ao fato que hoje há pessoas envelhecendo. São os baby boomers, aquelas que nasceram entre 1945 e 1965. Eu estou entre eles.

Somos muito numerosos, com nível de saúde e de educação mais alto do que qualquer geração antecedente, com um pouco de dinheiro no bolso, mais pique, mais conhecimento. E o que a gente foi fazer? Encontramos espaço, tempo e dinheiro para inventar, criar, pela primeira vez na história da humanidade, encontramos um período, uma transição entre a infância e a idade adulta, que a gente chama de adolescência. Todo mundo sabe o que é a adolescência, está lá definido no dicionário. Mas não estava no dicionário em 1950. E essa transição foi revolucionária. Veja os Beatles, a Tropicália, as manifestações estudantis. Isso tudo é a marca da nossa geração.

Agora que nós estamos envelhecendo, nós não vamos envelhecer como os nossos pais ou os nossos avós. Será diferente. E é isso que eu chamo de gerontolescência: um período que, para muitos, tem-se mais autonomia e mais ciência dos seus direitos. E a vamos virar a mesa de novo, como viramos quando éramos adolescentes. Por isso, gerontolescência.

ANÁLIA | E muito desse processo também está relacionado com a opção das pessoas serem pais e mães mais tarde hoje. Quais vantagens e desvantagens o senhor vê nesta situação?

KALACHE | A vantagem, sobretudo, para a mulher é que ela pode consolidar sua vida laboral. Pode ter uma carreira mais estabelecida. Aos 22 ou aos 24 anos, hoje, não se tem liberdade e nem lastro econômico para criar seus filhos sem ficar tão presa.

A desvantagem, é claro, é que talvez não se tenha o mesmo pique, a mesma energia que uma mulher mais jovem. Porque criança dá trabalho, não tem jeito. E segundo, esta mulher terá filhos adolescentes quando tiver seus 60 anos. Não é tão fácil o diálogo entre gerações e isso pode gerar tensões.

ANÁLIA | E acaba recaindo muito mais sobre o papel da mulher mesmo…

KALACHE | Sempre, sempre. A perspectiva de gênero é pouco trabalhada e entendida, mas os homens e as mulheres envelhecem de forma diferente. Há um aspecto de expectativa de vida [da mulher] mais alta, as mulheres duram mais. O tal “sexo fraco” não é tão fraco, não. Sabendo-se, por exemplo, que a grande causa de mortalidade dos adultos, depois dos 60 anos, são as doenças cardiovasculares, as mulheres quanto a isso estão protegidas até a menopausa – a partir daí o risco aumenta. Então, precisamos ver isso cientes de que, muitas vezes, as pessoas pensam que doença cardiovascular mata só os homens. Mas não, a partir dos 60 anos, as mulheres vão aumentando e aumentando o risco, chegando aos 80 anos com taxas tão altas quanto as dos homens.

Mas elas duram mais, vivem mais, e, no Brasil, bem mais do que a média dos outros países, porque temos a perda de homens por causa da violência. Isso tudo vai se refletir no fato que a mulher tem expectativa de vida mais alta e não necessariamente com qualidade. Mulheres têm também uma alta taxa de doenças osteomusculares, começando com osteoporose, artrose e perda de massa muscular. Isso faz com que muitas mulheres, quando chegam aos 80, 85 anos, percam a independência não pelos fatores letais, mas por causa de tais doenças, causando impacto na sua vida e na qualidade dela.

E também porque as mulheres no Brasil, aliás, em quase todas as culturas, as mulheres costumam se casar com homens mais velhos. O que é que vai acontecer? A mulher sobrevive ao homem e não vai ter quem cuide dela, como ela cuidou do marido quando ele adoece e morre. O cuidado no Brasil é uma questão também de gênero, tem uma cara feminina. E a gente tem que pensar muito e cuidadosamente quais as políticas precisamos implementar para essas mulheres, que estão envelhecendo e se tornando viúvas, também sejam cuidadas.

ANÁLIA | O senhor pode falar um pouco sobre o conceito de Cidade Amiga do Idoso?

KALACHE | Desenvolvi esse conceito a partir de 2000, sobretudo em 2005, quando lancei a ideia num congresso internacional de gerontologia. Fui convidado para fazer a conferência de abertura. E eu já estava ciente de que dois grandes fenômenos iam acontecer no mundo, do ponto de vista demográfico. São eles: o envelhecimento e a urbanização. O Brasil já era, naquela época, um país altamente urbanizado, e continua sendo. Mas outros países, sobretudo, da África e da Ásia, do ponto de vista global, ainda iriam experimentar o processo de urbanização. E o que vai acontecer? As pessoas estão envelhecendo e vão envelhecer em cidades. É preciso adequar a cidade a um perfil demográfico, que não é o mesmo de antes. Estou falando de Copacabana [bairro do Rio de Janeiro], que foi a minha inspiração. Eu nasci e fui criado em Copacabana. O bairro hoje tem o mesmo perfil demográfico que o Japão, o país mais envelhecido do mundo. Tem razões para isso, porque Copacabana se urbanizou a partir dos anos 1930. As pessoas jovens e os casais jovens que podiam, vinham para Copacabana, naquele tempo. Era o sonho de consumo: morar numa praia bonita, à beira-mar, então, para lá foram. E ficaram, pois é plano, bonito, tem o comércio, faz-se tudo a pé, tem médico, farmácia, igreja, tem tudo. Mas os filhos e os netos, e agora até bisnetos foram para outras praias mais da moda, como Ipanema e Barra da Tijuca. E, então, o que acontece com esse fenômeno? A população do lugar perde seus jovens e mantém pessoas que estão envelhecendo cada vez mais. Isso acabou formando o bairro muito envelhecido.

Em São Paulo, o equivalente acontece em Higienópolis. Em todas as cidades brasileiras tem-se perfis, mas Copacabana é o mais extremo. Então, comecei a fazer estudos, com grupos focais, perguntando aos idosos o que é bom, o que é ruim, quais são as sugestões, como é que Copacabana poderia ser mais adequada e mais amiga. E com base nestes resultados lancei a ideia no congresso, que despertou um interesse muito grande. E os participantes, principalmente os estrangeiros, vieram perguntar como foi o processo da pesquisa. A partir daí, a metodologia foi aperfeiçoada e recrutamos 35 cidades mundo afora. Desde grandes cidades, como Londres, Tóquio, Moscou e Cidade do México, até as menores, porém influentes, como Genebra. E, com base nos resultados desta pesquisa qualitativa, lançamos o guia da Cidade Amiga do Idoso, em 2007.

E eu acabo de voltar de Toronto [esta entrevista foi feita em agosto de 2018], devido a uma conferência na semana passada, da Federação Internacional do Envelhecimento, onde eu fui também o conferencista inaugural, falando de novo sobre o que aconteceu e as mudanças nesta década. Hoje, nós temos intervenções, políticas, cidades e comunidades amigas dos idosos com base neste guia da OMS em mais de duas mil cidades. Então, viralizou, porque encontrou ressonância nas pessoas, que, por sua vez, perceberam que o mundo está envelhecendo.

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